Como ajudar o paciente que recebe o diagnóstico de câncer

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (1), somente no ano de 2011, o Brasil teve 500 mil novos casos de câncer, e há uma previsão de cerca de 520 mil novos casos em 2012.

A Organização Mundial de Saúde (2) estima que a incidência de câncer vá dobrar até 2023, principalmente nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.

Com tudo isso, o câncer vem sendo considerado um dos maiores problemas da atualidade, e apesar dos progressos da medicina em relação ao tratamento, ainda perduram inúmeras metáforas ligadas ao seu diagnóstico, o que leva o momento do diagnóstico um gerador de grande angústia.

Conforme afirma Venâncio (2004), o diagnóstico de câncer é vivido como um momento de muita angústia e ansiedade pelo motivo da doença ser rotulada como mortal e dolorosa. Muitos pacientes recebem seu diagnóstico como se estivessem recebendo uma sentença de morte. Eles vivenciam uma ruptura inesperada em sua forma habitual de vida, a incerteza e insegurança relacionadas ao seu futuro, a perspectiva de um tratamento incerto, por vezes doloroso e prolongado, o que os leva muitas vezes a um estado de crise, onde a fragilidade emocional torna-se uma esperada conseqüência. Podemos, portanto, compreender que a vivência do câncer é uma experiência muito forte e que não nos deixa indiferentes.

Lorencetti e Simonetti (2005) desenvolveram um trabalho com pacientes oncológicos a cerca das estratégias utilizadas por eles diante do diagnóstico, doença e tratamento. Verificou-se que os pacientes criam meios para enfrentá-los, como forma de amenizar o sofrimento e lidar com a situação, buscando equilíbrio diante das adversidades da doença.

Segundo Kubler-Ross (1996), o paciente, também como forma de defesa, vivencia várias etapas até chegar ao momento de aceitação de seu diagnóstico.

A primeira etapa seria a da negação, na qual o paciente ao receber seu diagnóstico, vai à busca de outros médicos, repete os exames em outros laboratórios, sempre na esperança de conseguir uma explicação diferente para a sua doença. Alguns pacientes evitam até mesmo a conversa mais detalhada com o seu médico, buscando sempre distanciar-se neste primeiro momento, de tudo aquilo que o coloca diante de algo que está sendo muito difícil de ser vivenciado.

Quando não é mais possível viver o estágio da negação, este é substituído pelo sentimento de raiva, revolta, inveja e ressentimentos. Nesta fase o paciente fica bastante queixoso e nada do que lhe for dito ou feito o deixará tranqüilo.

Pessoas que sempre foram acostumadas a ter o controle de suas vidas, geralmente reagem com muita raiva e fúria ao se verem forçados a abandonar seus controles.

Após perceber que não resolveu nada negar e muito menos se revoltar contra o mundo, agora ele tenta negociar sua melhora. Este é o chamado estágio da barganha. Geralmente estas negociações são realizadas com Deus.

Quando é necessário iniciar o tratamento, quando passa a vivenciar os sintomas da doença e os efeitos colaterais do tratamento, não é mais possível esconder de si mesmo a realidade de seu diagnóstico. Aqui, sua raiva e revolta dão lugar a um sentimento enorme de perda e exaustão, o que pode desencadear um quadro depressivo no paciente.

Desta forma, os cuidados a uma pessoa com câncer começam depois do diagnóstico e continuam até depois do tratamento.

Um paciente que tiver passado por todas estas etapas anteriores, mas tiver recebido a ajuda correta, poderá elaborar e compreender todos os seus sentimentos e das pessoas que estavam ao seu redor ao longo do tratamento, podendo fazer desta doença tão difícil uma etapa de crescimento pessoal e amadurecimento, tanto para si quanto para seus familiares.

É importante que a equipe multidisciplinar não volte a atenção somente para o paciente, pois muitas vezes o sofrimento da família iguala-se ou até mesmo supera o do próprio paciente.

Outro ponto muito importante, pensando em diminuir a ansiedade e angústia ao longo do tratamento, é que o paciente tenha o saber sobre sua doença, podendo desta forma contribuir melhor para o seu tratamento. Quanto mais orientações receberem, menores serão suas incertezas, fantasias e apreensões. Desta forma colaborarão mais com o tratamento e terão maior segurança com relação ao mesmo.

De acordo com o INCA (6), apesar de grave, o câncer, dentre todas as doenças crônicas, é a mais prevenível e a mais curável quando tratado desde o início. O trabalho do psicólogo seja de apoio, aconselhamento, reabilitação ou psicoterapia individual ou grupal, tem facilitado a transmissão do diagnóstico, a aceitação do tratamento, o alívio dos efeitos secundários destes e a obtenção de uma melhor qualidade de vida.

A ajuda psicológica às famílias pode ajudar muito no enfrentamento da doença, auxiliando-os a lidarem com seus medos e angústias, na sobrecarga de suas funções e tantos outros transtornos que a doença causa na dinâmica do paciente e no seu entorno.

Portanto, a trajetória percorrida depende da individualidade do paciente, sua estruturação psíquica e do suporte familiar recebido, podendo este trajeto ser curto ou mais longo e sofrido.

Os “PSI” não estão lá para te julgar, mas para te acompanhar quando a necessidade se faz sentir, ou seja, quando você não consegue mais gerir suas emoções e estados d’alma.

Referências Bibliográficas:

Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Incidências de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro. 2011.

Organização Mundial da Saúde. Portal da Saúde – www.saude.gov.br

Venâncio, J.L. (2004). Importância da atuação no tratamento de mulheres com câncer de mama. Revista Brasileira de Cancerologia, 50 (1); 55-63.

Lorencetti, A & Simonetti, J.P. (2005). As estratégias de enfrentamento de pacientes durante o tratamento de radioterapia. Revista Latino – Americano de enfermagem, 13(6); 244-250.

Kubler-Ross, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. 7ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1996.

INCA/MS, 2002. Prevenção e Controle do Câncer. Revista Brasileira de Cancerologia, 2002, 48(3); 317-332.

Manual de Condutas – Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). 2011

 

Autor:Dra. Flávia Santos Dumont Sorice

CRP 04/17129

Psicóloga Clínica, graduada pela Universidade FUMEC – B.H., Pós Graduada em Psicologia Hospitalar pela Universidade FUMEC – BH. Psicóloga da Clínica Oncocentro de M.G.

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