Fertilidade e gravidez nos sobreviventes do câncer

Fertilidade e gravidez nos sobreviventes do câncer

O número de sobreviventes do câncer vem aumentando no mundo. A manutenção da fertilidade e da capacidade de ser pai e mãe são importantes para muitos desses pacientes. Alguns estudos realizados em países desenvolvidos mostram que apenas a metade das pessoas com diagnóstico de câncer recebe um aconselhamento reprodutivo adequado antes de iniciar seu tratamento oncológico.

Nesse artigo tentaremos responder algumas dúvidas frequentes dos pacientes.

Infertilidade e câncer

São vários os fatores que aumentam o risco de infertilidade em sobreviventes do câncer: a própria doença, as drogas quimioterápicas empregadas, radioterapia e cirurgias. A infertilidade pode ser transitória ou permanente.

O risco de um paciente com câncer apresentar infertilidade após ser curado  depende de alguns fatores, sendo os mais importantes:

–          Tipo e estágio do câncer diagnosticado

–          Classe de droga empregada e sua dose cumulativa (as drogas que possuem maior chance de provocarem  dano ovariano são: ciclofosfamida, dacarbazina, procarbazina, bulsulfan, mostarda nitrogenada e clorambucil)

–          Campo de radiação e dose empregada

–          Idade do paciente

O principal estudo que avaliou a relação entre infertilidade e câncer foi o Childhood Cancer Survivor Study, avaliando um grande número de pacientes que tiveram diagnóstico de câncer com idade inferior a 21 anos. Esses pacientes tiveram um maior risco de não se tornarem paisquando comparados com pessoas da mesma idade.

Os principais fatores de risco foram, nas mulheres:

–          Radiação hipotálamo/hipófise com dose maior ou igual a 30 Gy.

–          Radiação útero/ovário dose maior ou igual a 5 Gy.

–          Uso de agentes alquilantes em doses altas

–          Uso de lomustina ou ciclofosfamida

Nos homens:

–          Radioterapia testículos dose maior 7,5Gy

–          Uso de agentes alquilantes em doses altas

–          Uso de ciclofosfamida.

Medidas para preservar a fertilidade

–          Proteger órgãos sexuais durante a radioterapia

–          Criopreservação de embriões e oócitos

–          Criopreservação do esperma

–          Uso de agonistas GnRH

O uso de cada uma dessas medidas deve ser individualizado e leva em consideração a presença de parceiro sexual, custo, idade da paciente e um importante fator que é o tempo, isso por que, em alguns casos, o tratamento anti tumoral deve ser iniciado com urgência e não há tempo para medidas de criopreservação.

Em março de 2015 foi publicada na New England Journal of Medicine um importante estudo avaliando o uso de análogo GnRH (Goserelina) concomitante ao tratamento quimioterápico em mulheres com câncer de mama (exclusivamente tumores com receptores hormonais negativos). O principal objetivo era avaliar taxa de  falência ovariana após 2 anos de término do tratamento.

Além de terem apresentado uma redução significativa da taxa de falência ovariana, as pacientes que utilizaram a Goserelina junto com  quimioterapia também apresentaram um maior número de gravidezes.

A gravidez afeta o risco de recorrência do tumor?

A gravidez não eleva o risco de recidiva do câncer. A exceção é doença trofoblástica gestacional. A melhor época para a gestação após a cura do câncer ainda não é definida e depende de fatores como o tratamento empregado e a idade da mulher. A maior partes das  recidivas do câncer ocorre nos primeiros dois anos após o término do tratamento, assim, a maioria dos especialistas recomenda que se aguarde esse período antes de engravidar.  Vale apena ressaltar que a gravidez que ocorre antes desse período não aumenta o risco da doença voltar.

Incidência de anormalidades congênitas nos filhos

Diversos estudos mostraram que filhos de pacientes que receberam tratamento quimioterápico, radioterápico ou ambos, não apresentam chance aumentada de apresentarem anormalidades congênitas ou cromossômicas. A maioria desses estudos incluiu gestações que ocorreram anos após o término do tratamento.

Risco de complicações durante a gestação

O risco de problemas durante a gestação (aborto, natimorto, crescimento intra uterino retardado) depende principalmente do tratamento realizado pela mãe.

Os dados mostraram que a quimioterapia parece não exercer efeito nocivo sobre o útero. No Childhood Cancer Survivor Study incidência de aborto entre as pacientes que receberam quimioterapia quando jovens não foi maior do que na população em geral.

Portanto pacientes tratadas com quimioterapia no passado não possuem maior risco de apresentarem complicações como aborto e crescimento intra uterino retardado.

Mulheres que receberam tratamento radioterápico na região do útero por sua vez possuem maior incidência de complicações durante a gravidez. A incidência de nascimento pré termo chega a 50% e a de baixo peso ao nascer é de 36%. Mulheres tratadas com radioterapia pélvica antes da menarca possuem risco aumentado de apresentarem aborto.

Converse com seu médico

Portanto todo paciente com câncer deve conversar com seu médico a respeito de sua vida produtiva. Possivelmente você também irá vencer o câncer e ter  uma vida reprodutiva normal poderá ser importante no futuro.

Referencias bibliográficas:

1) Green DM, Kawashima T, Stovall M, et al. Fertility of female survivors of childhood cancer: a report from the childhood cancer survivor study. J Clin Oncol 2009; 27:2677.

2) Barton SE, Najita JS, Ginsburg ES, et al. Infertility, infertility treatment, and achievement of pregnancy in female survivors of childhood cancer: a report from the Childhood Cancer Survivor Study cohort. Lancet Oncol 2013; 14:873.

3)Signorello LB, Cohen SS, Bosetti C, et al. Female survivors of childhood cancer: preterm birth and low birth weight among their children. J Natl Cancer Inst 2006; 98:1453.

4)Moore HC et alGoserelin for ovarian protection during breast-cancer adjuvant chemotherapy. N Engl J Med.2015 Mar 5;372(10):923-32.


 

Autor:

Dr. Volney Soares Lima
CRM MG 33029 / RQE 15235

Médico Oncologista Clínico do Hospital Felicio Rocho, da clinica Oncocentro BH, da Urológica e do IPSEMG

Membro Titular Sociedade Brasileira Oncologia Clinica

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