Processo de Comunicação em Oncologia

Vivemos ainda em uma cultura na qual o câncer é muito mistificado,  sendo fatídica a dificuldade de nos despirmos dessa cultura internalizada de que o câncer estará sempre associado a uma fatalidade. Desse modo, a comunicação sobre os assuntos que envolvem a palavra câncer costumam ser estressantes e de difícil manejo, tanto no momento do diagnóstico quanto no prognóstico. Essa é uma realidade tanto para quem recebe quanto para quem dá a notícia. Esse processo de comunicação em oncologia é muito importante para a segurança e confiança do paciente e seus familiares, e se a pretensão é desenvolver a arte de cuidar de pessoas com câncer, há que se atentar às questões que envolvem todo esse processo. Comunicar é transmitir atitudes e não apenas informações.

Sendo assim, Santos (2009) esclarece que a comunicação expressa pela linguagem representa um meio de compartilhamento entre indivíduos que, embora sejam semelhantes e pertençam a grupos com interesses similares, diferenciam-se entre si por seus pensamentos. Ele aponta que isso acontece por intermédio de signos verbais, escritos, sons, gestos, expressões, postura corporal e espaço físico que o homem utiliza e que revelam não apenas aquilo que o indivíduo pensa, mas também seus sentimentos.

Nessa perspectiva, existem componentes essenciais para uma comunicação saudável, os quais devem ser considerados para o desenvolvimento desse cuidado integral. Dentre eles estão: o envolvimento com a família do paciente; a capacidade de entender que as famílias têm suas próprias ideias e crenças sobre a natureza da doença; a transmissão das informações com clareza; a percepção das limitações dos pacientes e familiares; poder assegurar ao paciente a certeza de não ser abandonado e possibilitar que eles falem sobre seus medos, expressem desejos e saibam reconhecer suas emoções. As reações emocionais são comuns em pacientes e familiares sob estresse e, geralmente, quando essas emoções surgem e são expressas, deixam o profissional desconfortável e sem saber lidar com elas (PHIPPSE CUTHILL, 2002, apud SANTOS, 2009).A verdade é que ninguém está completamente preparado para lidar com a angústia do outro, pois estas nos remetem à nossa própria frustração e limitação diante de nossa existência.

O que se observa é que, muitas vezes, os pacientes evitam falar sobre seus sentimentos, talvez por medo de não serem acolhidos ou por acharem que o outro não saberá lidar com essa emoção, chegando ao ponto de se calarem, o que, em alguns casos, acaba por refletir a esquiva tanto do paciente quanto das pessoas envolvidas. Freud (1930), apud Moreira (2005) nos diz que os homens se esforçam para obter a felicidade, e esta é alcançada por meio da vivência de intensos sentimentos de prazer e diante da perspectiva da ausência de sofrimento. Com relação a isso, Silva (2000) ressalta que a melhor forma de comunicação passa pela consciência de que não queremos nos afastar da pessoa, mesmo que ela nos provoque dor. Esse é o verdadeiro sentido do cuidado colaborativo em oncologia.

Segundo Santos (2009) no contexto de relacionamento entre profissionais da saúde, paciente e família baseado na comunicação, o desenvolvimento do relacionamento interpessoal complementa as habilidades dos profissionais para atingir o objetivo de oferecer cuidado integral ao paciente e sua família, no entanto as habilidades de comunicação desenvolvidas são consideradas o alicerce de um cuidado centrado em ambas as partes.

Victorino et al. (2007) lembram que o paciente não reterá muito do que foi dito depois da comunicação da má notícia inicial; isso é esperado e deve ser retomado em outro momento. A informação pode ser individualizada e o conteúdo transmitido de acordo com as necessidades ou desejos do paciente. Sentimentos como ansiedade, raiva, culpa, receio de mudança nos relacionamentos, afastamento de funções na família e no trabalho, perda da independência e preocupações financeiras, provavelmente provocarão hesitações e acentuarão óbices à capacidade de compreensão do paciente (GRINBERG, 2010).

Dessa forma, ouvir a má notícia deve ser contrabalanceado, com a evidência de que algo pode ser feito. Mesmo que uma cura não seja realista, oferecer esperança e encorajamento sobre quais opções estão disponíveis é necessário e importante. Afinal,“As palavras, o olhar, os gestos e o silêncio podem ser mais cortantes que o mais afiado bisturi, ou mais analgésicos que o mais potente entorpecente” (Perdicaris, 2009).

Referências

FREUD apud, MOREIRA, Jaqueline de O (2005). A alteridade no enlaçamento social: uma leitura sobre o texto freudiano “O mal-estar na civilização”. Estud. Psicol. (Natal). Vol.10. No2. Natal.Disponível em http://www.scielo.br/scielo. Acesso em 28/01/15 ás 10:00

GRINBERG, Max (2010). Comunicação em Oncologia e bioética. Rev. Assoc. Med. Bras. Vol.56 nº 4. São Paulo. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php. Acesso em 04/02/15 ás 10:30

PHIPPSE CUTHILL, apud, SANTOS, F.S, (2009). Cuidados paliativos – Discutindo a vida, a morte e o morrer. São Paulo, Rio de Janeiro. Ed. Atheneu.

SANTOS, F.S, (2009). Cuidados paliativos – Discutindo a vida, a morte e o morrer. São Paulo, Rio de Janeiro. Ed. Atheneu.

VICTORINO, A.B.; NISENBAUM, E.B, GIBELLO, J.; BASTOS; M.Z.N.; ANDREOLI; P.B.A. Como comunicar más notícias: revisão bibliográfica. Hospital Israelita Albert Einstein. São Paulo. Revista SBPH. v.10 n.1 Rio de Janeiro jun. 2007.

 

 

Autor:Suellen Cristina Rodrigues

Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2011)

Especialização em Psico Oncologia pela Faculdade de Ciências Médicas (conclusão Jul 2015)

Atuações profissionais em Psicologia organizacional, Psicologia hospitalar e Clínica.

Atuante no hospital Felício Rocho.

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