Quimioterapia precoce em câncer de prostata avançado: uma mudança de paradigma?

Quimioterapia precoce em câncer de prostata avançado: uma mudança de paradigma?

A manipulação hormonal é o tratamento padrão para pacientes com câncer de próstata metastático desde 1940. No início do mês de agosto/2015 foi publicado o estudo CHAARTED, ouECOG 3805, que comparou o tratamento padrão isolado ou associado a quimioterapia para pacientes com doença avançada com ganho em tempo de vida. E é sobre ele que falaremos hoje.

Tradicionalmente, pacientes com doença metastática de próstata, ou seja, doença que acomete outros órgãos além da prostata, eram tratados com privação androgênica, seja ela cirúrgica ou química. No caso de necessidade poderiam ser associados os antiandrogênios. No entanto, mesmo com a terapia combinada, muitos destes pacientes manifestavam piora da doença e precisavam ser submetidos a quimioterapia. Pensando nisto o estudo ECOG 3805 se propôs a avaliar se a quimioterapia ao diagnóstico de doença metastática seria capaz de aumetar o tempo de vida destes pacientes.

Para participar do estudo os pacientes deveriam ter condição clinica compatível com recebimento de quimioterapia e, caso já tivessem recebido terapia hormonal na vida, deveriam estar há mais de 12 meses sem a medicação.

Os pacientes eram alocados para cada tratamento de maneira aleatória, porém havia o cuidado de manter os dois grupos semelhantes em termos de volume de doença (foi considerada doença volumosa caso houvesse presença de acometimento visceral, ou mais de 4 pontos de metástase óssea sendo pelo menos um fora da coluna vertebral ou pelve ). Destaco que mais de 60% dos pacientes de cada grupo tinha doença volumosa. Outras caracteristicas como idade, estado clínico e agressividade da doença também eram semelhantes entre os grupos.

Foram recrutados um total de 790 pacientes de julho de 2006 a dezembro de 2012 e eles foram acompanhados durante o estudo com medidas de PSA, avaliação clinica e exames de imagem.

O grupo que recebeu o tratamento combinado, com privação hormonal e quimioterapia, ganhou 13,6 meses em tempo de vida média em relação aos pacientes que receberam apenas o tratamento padrão, sendo que nos pacientes com doença volumosa este benefício foi ainda maior, chegando a 17 meses de média. Do ponto de vista estatístico, os pacientes de doença pouco volumosa deveriam ser acompanhados por mais tempo para comprovação do benefício em tempo de vida.

A adição da quimioterapia também aumentou o tempo de controle da doença, em termos clinicos, de imagem e laboratorias. Porém nada é de graça nesta vida. Este grupo também registrou mais episódios de queda de imunidade, infecções e alterações de sensibilidade, o que já era esperado.

Este estudo abre portas para uma nova opção de tratamento para pacientes com câncer de prostata avançado. Contudo a escolha da terapêutica ainda deve ser individualizada e feita pelo médico em conjunto com cada paciente.

 

Autor:

– Dra Maria Helena Rangel

Médica residente do serviço de oncologia Clínica Hospital Felicio Rocho

– Dr. Volney Soares Lima
CRM MG 33029 / RQE 15235

Médico Oncologista Clínico do Hospital Felicio Rocho, da clinica Oncocentro BH, da Urológica e do IPSEMG

Membro Titular Sociedade Brasileira Oncologia Clinica

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