Terapia de reposição hormonal e o risco de câncer de mama

Terapia de reposição hormonal e o risco de câncer de mama

Os ovários são órgãos do sistema reprodutor feminino com a importante função de sintetizar hormônios que desempenham papéis fundamentais na manutenção da saúde. O estrógeno e a progesterona preparam o útero para a gravidez, promovem crescimento de glândulas mamárias e dão forma e curvas ao corpo feminino. Além disso, sua presença está diretamente relacionada ao fortalecimento de ossos e músculos, à proteção do coração, ao desejo sexual, à estabilidade emocional, e a diversos outros papéis.

Com o avançar da idade, entre 40 a 50 anos, no geral, o corpo passa por modificações que culminam com o declínio da função ovariana, processo denominado climatério. Nessa fase da vida, em virtude dos baixos níveis hormonais, as mulheres experimentam sensações desagradáveis, como ondas de calor, rubor da pele, ressecamento vaginal, depressão e enfraquecimento do esqueleto, dentre outros.

A terapia de reposição hormonal (TRH) surgiu justamente para amenizar este processo, e a ideia central seria expor o organismo novamente a elevados níveis de estrogênios e progestágenos. Os maiores benefícios dessa estratégia são observados nas seguintes esferas: melhora dos sintomas vasomotores, representados pelas ondas de calor e vermelhidão da pele; aumento na lubrificação vaginal, resultando em melhora da vida sexual e na redução de fraturas por osteoporose. Supõe-se, ainda, que haja vantagens em proteção cardiovascular e em redução do desenvolvimento de demências, entretanto, a ausência de estudos clínicos prospectivos dentro desse conceito não permite essa conclusão em definitivo.

Tudo parece bom, mas o grande questionamento acerca do tema reside no fato de que as células da mama possuem receptores em sua superfície que são alimentados pela presença desses hormônios, aumentando as chances de um estímulo de crescimento exagerado e surgimento de um tumor maligno. É como se o corpo, precavido e sábio, após certa idade, reduzisse a produção dessas substâncias para se proteger do câncer e o ser humano, em ato de teimosia, insistisse com a reposição.

A TRH vem crescendo entre as mulheres no climatério e evidências de longos seguimentos de estudos observacionais apontam para um discreto, mas consistente aumento do risco de câncer de mama, o que tem gerado preocupação entre as usuárias. A literatura fundamenta a hipótese de que o estrogênio e seus derivados estão envolvidos no processo de carcinogênese e revela que o risco de seu desenvolvimento aumenta, conforme se prolonga o tempo de exposição à terapia. A progesterona parece agir de forma sinérgica com os estrógenos nas células mamárias e sua adição à TRH promoveu ainda maiores efeitos sobre a proliferação celular.

É claro que apenas uma menor parte das usuárias irá de fato desenvolver alterações neoplásicas. Fatores genéticos e ambientais, como tabagismo, obesidade e alimentação desregrada podem contribuir fortemente para a ocorrência. O risco relativo de se desenvolver um câncer de mama em usuárias de Reposição Hormonal aumenta em 2,3% para cada ano de uso e torna-se realmente significativo após 5 anos de tratamento. Além disso, por promover aumento do volume e da densidade de glândulas mamárias, o uso de dos hormônios pode atrasar o diagnóstico da doença em estágios iniciais, por prejudicar a qualidade das mamografias de rastreio. Destaca-se também que após 5 anos da descontinuação medicamentosa o risco de neoplasias retorna a níveis basais.

Talvez, pensando por esse lado, o tratamento de reposição hormonal só é antinatural. Entretanto, é fato que, ainda hoje, cerca de 30% a 40% das mulheres na pós-menopausa façam uso dessas substâncias. Estariam elas e seus médicos errados? Definitivamente não. Apesar de algumas pacientes transitarem da fase fértil para a menopausa em boas condições de saúde e praticamente sem sintomas, uma parcela considerável sofre com a atrofia vaginal, calor excessivo, irritabilidade, insônia, depressão, além de alterações de pele, cabelos e unhas. Para estas situações a recomendação da TRH é justificável e proporciona benefícios incontestáveis.

De forma geral, a sociedade médica é favorável a essa tendência, bastando que seja recomendada por profissional capacitado e que possua condições de orientar na seleção das pacientes apropriadas, auxiliar na escolha das melhores opções medicamentosas e que tenha senso crítico para definir o melhor momento de se iniciar e de interromper o tratamento. Se você tem interesse no assunto, procure seu médico, pois certamente ele terá imenso prazer em esclarecer as suas dúvidas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1-       JAMA. 2002 Jul 17;288(3):321-33. [PMID 12117397]

2-       J Natl Cancer Inst. 2012 Apr 4;104(7):517-27. [PMID 22427684]

3-       N Engl J Med. 2009 Feb 5;360(6):573-87. [PMID 19196674]

4-       Sociedade Brasileira de Climatério. Consenso Brasileiro Multidisciplinar de Assistência à Saúde da Mulher Climatérica. Disponível em <http://p.download.uol.com.br/menospausa/Consenso%20-%20Menopausa.pdf> Acessado em 12 de abril de 2015.

5-       Wannmacher, L; Lubianca, JN. Terapia de reposição Hormonal na menopausa: evidencias atuais.Uso racional de medicamentos. ISSN 1810-0791 Vol. 1, Nº 6, maio de 2004.

 

Autor:Octávio de Castro Menezes Candido

Oncologista Clínico – CRMMG 50.710

 

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