Tratamento do Tabagismo

Tratamento do Tabagismo

O tabagismo é um dos grandes problemas de saúde pública e a maior causa de morte evitável. A fumaça do cigarro contém mais de 4700 substâncias conhecidas, sendo a maioria prejudicial à saúde.  Em 2008, 17.5% da população acima de 15 anos no Brasil eram usuários do tabaco, correspondendo cerca de 25 milhões de pessoas. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) ocorreram aproximadamente cinco milhões de óbitos por ano no mundo devido às doenças relacionadas ao tabagismo, o que corresponderia a seis mortes por segundo. Estudos mostram que 50% dos fumantes irão falecer de alguma doença associada ao cigarro. Os benefícios advindos com a cessação deste hábito já são bem estabelecidos – redução de 50% do risco de doenças cardiovasculares após um ano sem o cigarro, redução de 30 a 50% do risco de morte por câncer de pulmão após 10 anos sem fumar e redução de 50% no risco de morte por doenças relacionas ao tabagismo após 16 anos de abstinência.O fumante de longa data fuma principalmente por três motivos:

Hábito ou condicionamento: representado por associações habituais entre fumar e situações corriqueiras. Acende o cigarro assim que começa alguma ação específica: falar ao telefone, sentar à direção automóvel, trabalhar no computador, tomar café, ingerir bebida alcoólica. A ocorrência do hábito é constatada pelo relato comum do fumante de que algumas vezes acendem o cigarro e ao colocá-lo no cinzeiro notam que já havia outro cigarro aceso nele.

Prazer: responsável pela sensação de ter no cigarro um apoio para lidar com sentimentos de solidão, frustração e outros.

Dependência: este é o motivo mais importante e o responsável por sinais e sintomas da síndrome de abstinência. Sabe-se desde 1988 que o tabagismo causa dependência, e que a nicotina é a maior responsável pela adição. A potência da nicotina para levar à dependência é maior do que a do álcool, da maconha e da cocaína. A nicotina, após ser absorvida pelos alvéolos (cigarro) ou pela mucosa oral (charuto e cachimbo), é rapidamente transportada pelo sangue aos mais diferentes órgãos, chegando ao cérebro em 7 a 20 segundos, ligando-se às células cerebrais criando um mecanismo de satisfação. Sempre que o nível de nicotina do sangue e a sua concentração nas células cerebrais diminuem, há um estímulo forte para que a nicotina seja reposta. Caso não ocorra a reposição, mecanismos de insatisfação são iniciados e vários sintomas desagradáveis ocorrem, constituindo a síndrome da abstinência. A dependência da nicotina apresenta as manifestações próprias dos dependentes de qualquer outra droga, manifestando com ansiedade, irritabilidade, aumento do apetite, distúrbios do sono, fissura, depressão; com a diferença que ela não gera euforia e agressividade. O ato característico da alta dependência da nicotina é representado pela necessidade que o fumante tem de fumar logo após acordar de manhã, antes mesmo de tomar o café. Quanto menor esse tempo, maior é a sua dependência (lembrar que ele ficou várias horas sem fumar durante o sono, diminuindo a sua concentração de nicotina, desencadeando a síndrome de abstinência).

A principal terapia contra o tabagismo é a terapia cognitivo-comportamental, na qual o fumante recebe informações sobre o tabagismo e sobre técnicas ou estratégias que possam modificar o seu comportamento em relação ao cigarro.

Deve-se marcar uma data que esteja próxima, talvez coincidindo com uma data que seja importante para o fumante (aniversário de casamento, dia dos pais, dia das mães). Orienta-se fazer exercícios (servem para diminuir o estresse, além de que adeptos de exercício estão mais preocupados com a saúde e tendem a não ter vícios), ler material de auto-ajuda, ter vida saudável, evitar os gatilhos que lhe faziam fumar.

Nas primeiras 24 horas da síndrome de abstinência podem ocorrer: desejo intenso por cigarros (fissura), irritabilidade, dificuldade de concentração, inquietação, insônia, cefaléia, tontura e distúrbios gastrintestinais. Os sintomas físicos da abstinência são passageiros, atingem seu pico em 2 a 3 dias após a interrupção do tabaco e dura 2 a 4 semanas. A fissura dura de 1 a 5 minutos e pode ser aliviada com estratégias como beber líquido, chupar gelo, mascar balas, chicletes ou cristais de canela ou gengibre.

Não é incomum que as pessoas que deixam de fumar ganhem certo peso. Estima-se que 80% dos ex-fumantes aumentem de peso, sendo este aumento médio de 2,5 Kg em um ano; um terço dos ex-fumantes pode ganhar até 8 kg. Não se sabe exatamente porque os ex-fumantes ganham peso, mas eles relatam um aumento da vontade de comer carboidratos. Desde o início do tratamento, os fumantes devem ter uma dieta mais adequada a esta fase e mais um vez estimulados a realizar exercício físico. Estas simples medidas podem ajudá-los a não ganhar peso. O consumo de café e álcool e outras substâncias associadas ao uso do cigarro devem ser evitados no período do tratamento do tabagismo.

Algumas medicações são eficazes em associação a terapia cognitivo-comportamental, estando indicada principalmente para fumantes com história de 20 ou mais cigarros ao dia; fumantes de mais de 10 cigarros ao dia no mínimo, mas que fumam o 1º cigarro até 30 minutos após acordar; fumantes que já tentaram parar de fumar anteriormente apenas com a abordagem cognitivo-comportamental, mas não obtiveram êxito devido aos sintomas da síndrome de abstinência. São divididas em medicamentos nicotínicos e não-nicotínicos

Medicamentos nicotínicos ou terapia de reposição de nicotina (TRN): No nosso mercado temos disponível os adesivos (formas de liberação lenta) e a goma de mascar (liberação rápida de nicotina)

Medicamentos não-nicotínicos: são os antidepressivos bupropiona e nortriptilina, o anti-hipertensivo clonidina e a vareniclina, desenvolvida exclusivamente para o tratamento do tabagismo.

A terapia de reposição de nicotina, a bupropiona e a vareniclina são consideradas drogas de 1ª linha e devem ser usadas preferencialmente. A nortriptilina e a clonidina são medicamentos de 2ª linha e somente são indicadas após insucesso das medicações de 1ª linha. Qualquer medicação só deve ser usada sob prescrição médica.

Para de fumar não é fácil, mas é possível. Recaídas acontecem e não devem ser tomadas como fracasso total. Algumas pessoas só deixam de fumar após sete tentativas ou mais.  O fumante só vai conseguir parar de fumar se tentar!

Referência Bibliográfica:

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer – INCA. Coordenação de Prevenção e Vigilância (CONPREV). Abordagem e tratamento do fumante – Consenso 2001. Rio de Janeiro: INCA, 2001 38p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Vigitel Brasil 2008: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico.

Doll, R., Peto, R., Wheatley, K. e col. Mortality in relation to smoking: 40 years’ observations on male British doctors. BMJ 1994,309:901-911.

Sardinha A, OlivaAD, D’Augustin J, Ribeiro F, Falcone EMO. Intervenção cognitivo-comportamental com grupos para o abandono do cigarro. Rev Bras Ter Cogn. 2005;1(1):83-90.

Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes para cessação do tabagismo. J Bras Pneumol 2004;30(Supl 2):S1-S76.

Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Prática Pneumologica. Programa de cessação do tabagismo. Cap 46;567 – 574.

 

Autor:Dra. Cristiane Assis de Oliveira

CRM MG 29352

RQE 13603

Médica Pneumologista e Especialista em Medicina do Sono do Hospital Belo Horizonte

Coordenadora do Laboratório de Sono da Clínica INPULSO

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